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Onde o Bitcoin Se Torna Dinheiro Primeiro

As economias circulares são os lugares onde o Bitcoin é procurado por quem produz riqueza numa região. São estes os lugares onde o Bitcoin vai evoluir mais depressa e os primeiros a tornar-se Bitcoin-first.

Por Charlie

· 9 min de leitura

Madeira, a ilha do Bitcoin

O problema de não haver uma fita métrica

Todos os governos do mundo gastam mais do que recebem, e a diferença entre as duas coisas, o défice, é quase sempre coberto assim: o governo pede emprestado e, quando não encontra pessoas suficientes dispostas a emprestar-lhe dinheiro (a comprar as suas obrigações), o banco central entra em cena e empresta-lhe o dinheiro, criado do nada. É esse o truque. Um governo que pode imprimir, nunca tem de dizer que não a si próprio. Ninguém vota nisto. Simplesmente acontece, ano após ano, porque criar uma moeda não custa nada, não há nada que a impeça de ser criada sem parar.

Há um grupo de pessoas que beneficia da moeda recém-criada. Grande parte da política gira à volta de quem fica com que parte da riqueza redistribuída que resulta dos impostos e da inflação. São promessas dos governos ao povo, e promessas que terão de ser pagas com a produtividade futura dos cidadãos.

É neste mundo que vivemos, e está a acelerar. As poupanças desgastam-se, os preços sobem, e toda a gente é obrigada a especular só para impedir que o dinheiro que poupou perca poder de compra. Fica um zumbido de ansiedade que a maioria das pessoas sente mas não consegue identificar. Os mais atentos vão à procura de um dinheiro melhor, com regras que não mudam.

O Bitcoin é esse dinheiro. Vinte e um milhões, fixos, e cada nova moeda tem de ser paga com energia real, através da mineração. Ninguém é dono do relógio, e ninguém pode encurtar o segundo. Não precisa de ser popular nem bonita. Só precisa de não se mexer, e não se mexe. As pessoas que veem cedo este dinheiro imutável, e que percebem como ganhá-lo, gastá-lo e construir as ferramentas que o tornam útil, são as que vão definir as regras do que vem a seguir.

Como uma coisa se torna dinheiro

O dinheiro não chega de uma só vez. Sobe três degraus importantes.

Primeiro, torna-se algo que as pessoas acham que vale a pena guardar. Uma reserva de valor. Pomos nele o nosso trabalho e confiamos que, no futuro, vai comprar algo que valha a pena. O Bitcoin já fez esta parte. Centenas de milhões de pessoas guardam-no exatamente por essa razão, e a maioria nunca gastou um sat.

Segundo, torna-se algo que as pessoas aceitam pelos seus bens ou serviços. Um meio de troca. Este é o passo decisivo, aquele que dá ao dinheiro a sua natureza de dinheiro e reduz a dependência de outras moedas para fazer as trocas. Não basta eu ter Bitcoin. O padeiro tem de o querer, o fornecedor do padeiro tem de o querer, e o homem que conserta o forno do padeiro tem de o querer. Caso contrário, o dinheiro sai do circuito, acaba por ser vendido por euros, e quem comprou esse Bitcoin guarda-o.

Terceiro, torna-se aquilo em que as pessoas contam. Uma unidade de conta. As rendas são fixadas nele. Os salários são acordados nele. Já ninguém faz a conversão de cabeça. Essa é a meta. Muitas pessoas que poupam em Bitcoin há algum tempo já medem a sua riqueza por “quanto Bitcoin é que eu tenho?”. A seguir vem “quantos sats custa a casa da esquina?”.

Mas há um pormenor. Estes passos não acontecem em todo o lado à mesma velocidade. Acontecem primeiro em grupos. Algures, um grupo pequeno de pessoas avança o suficiente no segundo passo para que o terceiro comece a aparecer nos contratos entre elas. A esse grupo chama-se economia circular, e é a coisa mais importante a acontecer no Bitcoin neste momento.

O que é, de facto, uma economia circular

Uma economia circular é um lugar físico onde os sats circulam em vez de saírem.

Parece simples, e a primeira metade é. Há muitos sítios com algumas lojas que aceitam Bitcoin. Um turista paga em sats, o dono da loja converte para euros nessa noite, e o ciclo acaba aí. Os sats passaram pelo lugar e foram-se embora. Isso é um meio de pagamento, não uma economia.

A segunda metade é o que importa: as pessoas que são donas dessas lojas, as que lá trabalham e as que as abastecem também vivem lá e também têm Bitcoin. Por isso, a dona do café não converte. Paga ao torrador de café em sats. O torrador paga em sats ao rapaz que lhe faz o site. O rapaz almoça no café. Ninguém teve de sair do circuito.

Quando esse circuito se fecha, os sats ficam conservados dentro desse espaço. Deixam de ser algo que se troca por euros e passam a ser algo que se guarda porque vai ser preciso na terça-feira. O dinheiro está agora a fazer as duas funções ao mesmo tempo, reserva de valor e meio de troca, no mesmo grupo, com as mesmas pessoas. E quando há pessoas suficientes a fazer isto, o terceiro passo chega sozinho. Alguém oferece um trabalho pago em sats. Alguém arrenda um apartamento em sats. Escreve-se um contrato com um prémio denominado em sats.

É só isto. Não é uma aplicação, não é uma corretora, não é uma conferência. São pessoas reais, num lugar real, com bens reais, que não precisam de sair da Bitcoin para viver a sua vida.

As três funções de uma economia circular

Uma economia circular está a cumprir três funções ao mesmo tempo, e cada uma importa por uma razão diferente.

É uma boia de salvação. Se tem Bitcoin e nenhum sítio à sua volta o aceita, continua a viver nos termos do sistema fiduciário. Os seus sats são uma aposta, e está rodeado de dinheiro fiduciário. Uma economia circular é o primeiro lugar onde um bitcoiner consegue, de facto, sair do barco. Renda, comida, um corte de cabelo, um mecânico, um dia de trabalho. Não é pouca coisa. É a diferença entre ter um ativo que valoriza e ter um lar que aceita as poupanças de uma vida.

É onde nascem novos bitcoiners. Ninguém é convencido por um gráfico. As pessoas percebem quando a senhora da banca de fruta onde compram há anos diz que agora aceita Bitcoin, e explica porquê. A adoção espalha-se pelo contacto, de pessoa para pessoa, de loja para loja, através das relações. Uma economia circular é um espaço suficientemente denso para que esses contactos aconteçam todos os dias, e não uma vez por ano numa conferência. É o terreno mais fértil que existe para formar novos bitcoiners.

É onde vivem os bons hábitos. A soberania e a privacidade não são ideias que se consigam manter sozinho, num mundo construído para eliminar essas práticas. Precisam de um lugar e de uma comunidade. Numa economia circular, está rodeado de pessoas que correm os seus próprios nós, guardam as suas próprias chaves e sabem que ferramentas permitem gastar sem expor a vida inteira na internet. Aprende-se pela proximidade e pelo contacto. Os padrões sobem porque toda a gente à nossa volta espera que subam. Cem bitcoiners isolados sabem cada um um pouco. Cem bitcoiners na mesma terra sabem muito, e ensinam-se uns aos outros de graça.

Porquê a Europa, porquê uma ilha, porquê a Madeira

Então, onde é que isto acontece primeiro? Não em todo o lado. Num sítio concreto, e os pormenores contam.

A Europa é o continente onde mais se quer que isto aconteça, e o mais difícil para o conseguir. É onde está uma enorme parte da história, da cultura e do comércio do mundo. É onde as pessoas querem, de facto, viver. É também onde a máquina fiduciária está mais completa: cada transação vigiada, cada comerciante espremido em comissões, cada aforrador discretamente taxado pela impressora. Se o Bitcoin conseguir criar raízes como economia dentro da Europa, consegue criá-las em qualquer lado.

Uma ilha ajuda mais do que se pensa. O circuito fecha-se com mais facilidade quando há uma costa à volta. Os fornecedores são locais porque têm de ser. As pessoas conhecem-se porque não há como evitá-lo. O dinheiro que sai da ilha nota-se, e o dinheiro que fica sente-se. O circular é a forma natural de uma economia insular, antes mesmo de se juntar o Bitcoin.

A Madeira tem tudo isto, e algo mais: atrai as pessoas certas. Nos últimos anos tornou-se um dos lugares onde programadores, criadores e pensadores de longo prazo e sérios do Bitcoin escolhem viver, e não apenas visitar. Vêm pelo clima, pela segurança e pelo ritmo de vida, e ficam porque há uma comunidade no terreno a trabalhar pela mesma missão. Hoje, mais de 160 negócios na ilha aceitam Bitcoin por Lightning, há um curso de Bitcoin de dez semanas em português, e um encontro mensal que enche uma sala sem que ninguém seja pago para lá ir. Há um número crescente de famílias bitcoiners que se instalaram cá e usam Bitcoin todos os dias. Estão a construir o mundo que acreditam ser o melhor para as gerações futuras.

É esta a receita. Uma grande concentração de pessoas que têm sats, uma grande concentração de lugares que os aceitam, e donos desses negócios que também vivem cá. Junte-se tempo e uma baixa preferência temporal, e esse circuito vai fechar-se. A Madeira ainda não é uma economia circular completa. Mas é, de longe, a mais bem posicionada da Europa para lá chegar primeiro, e para se tornar o lugar onde os sats se ganham, se gastam, servem para fixar preços e para fazer contratos, como parte da vida normal.

Onde acontece primeiro

A Bitcoin não vai tornar-se o dinheiro do mundo de um dia para o outro. Vai acontecer aos poucos, com o tempo, entrando devagar na forma como as pessoas pensam.

A história global, a dívida, a impressão de dinheiro, a perda lenta da capacidade de medir valor em moeda fiduciária, é bem real. E esta história global vai decidir-se a nível local, nas economias circulares. Decide-se em alguns lugares densos onde há pessoas suficientes com sats, lugares suficientes que os pedem pelos seus serviços, e donos de negócios que lá vivem. Esses lugares são a linha da frente. Tudo o resto está à espera deles.

Se tens Bitcoin e te tens perguntado o que fazer com ele para além de o guardar, a resposta é simples. Encontra um desses lugares, ou ajuda a construir um. Paga em sats a alguém que vai pagar em sats a outra pessoa. Sê a razão pela qual um circuito se fecha.

É isso que estamos a fazer numa ilha no Atlântico. Venham ver com os vossos próprios olhos.

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